A fórmula para uma vida longa Revista Bem-estar #40 - Mai a Jun 2018

 

Todos os dias, a professora aposentada Maria Helena Rebouças lê, costura, cozinha e ajuda na manutenção da casa onde mora com a filha, a aposentada pela Eletropaulo Lucila Rodrigues Caldas, em Moema, zona sul de São Paulo. Até pouco tempo atrás, gostava de dirigir pela cidade, mas não se adaptou ao novo carro automático da filha e agora prefere fazer tudo a pé. A rotina de outra paulistana e professora aposentada, Aurora Catharina Giora Albanese, é parecida. Fã de palavras cruzadas, ela também mora com a filha Anna Maria Albanese, também aposentada da Eletropaulo, e o genro, que contam com ela para ajudar no que for preciso, como levar cartas ao correio, fazer ajustes e reparos em roupas ou buscar compras no supermercado. As atividades diárias das duas não chamam muito a atenção, não fosse um detalhe: elas têm 93 e 92 anos, respectivamente e usuárias dos planos de saúde da Funcesp. E o segredo para viverem tanto (e tão bem) pode estar justamente na forma como encaram o dia a dia.

Ao menos é o que sugerem estudos feitos nas cinco regiões do mundo com a maior concentração de centenários. São elas: a Sardenha, uma ilha na Itália; as ilhas Okinawa, no Japão; a cidade de Loma Linda, na Califórnia, nos Estados Unidos; a Península Nicoya, na Costa Rica; e Icária, na Grécia. Chamadas “Zonas Azuis” (ou Blue Zones, no nome em inglês), elas foram observadas de perto por mais de cinco anos pelo jornalista Dan Buettner e sua equipe, em parceria com a National Geographic. O estudo, que atualmente virou um projeto contínuo com dicas e informações sobre longevidade, partiu de outra pesquisa que mostra que somente 10% do quanto uma pessoa vai viver são determinados por nossa genética. Os outros 90% são ditados pelo estilo de vida da pessoa. Com essa premissa, os pesquisadores decidiram encontrar o melhor estilo de vida para a longevidade e criar uma espécie de “fórmula” para alcança-la, porque a maioria das pessoas não tem ideia do que fazer para viver mais. Por exemplo, devem comer carne orgânica ou se tornar vegetarianas? É melhor correr maratonas ou fazer yoga? Devem usar suplementos e se submeterem a grandes intervenções médicas ou não?

 

 

O futuro não é mais como era antigamente

 

Contrariando teses que atribuem vidas mais longas e saudáveis aos avanços da medicina e terapias tecnológicas modernas, Buettner mostra que viver mais pode ser muito mais simples do que parece. “Nas Zonas Azuis, as pessoas não modificam suas vidas para tentar viver até os 100, é algo que ocorre naturalmente por causa do ambiente”, explica Buettner, que esteve em São Paulo em maio para uma conferência do Plenae, criado para disseminar práticas e hábitos de vida mais saudáveis para promover a longevidade. Esses ambientes, segundo observou, favorecem um cotidiano pouco estressante, com muita convivência familiar ou um forte senso de comunidade, dietas saudáveis, um senso de propósito ou espiritualidade e atividades físicas diárias. Mais ou menos os estilos de vida de Maria Helena e Aurora.

Filha de imigrantes italianos, Aurora foi habituada desde criança a uma dieta equilibrada, rica em verduras e frutas, com alimentos feitos em casa. De acordo com Buettner, essas são justamente as bases de uma alimentação saudável que contribui para a longevidade. Às vezes chamada de “dieta mediterrânea”, além das frutas e vegetais, é composta principalmente por peixes e castanhas e tem a carne vermelha, o açúcar e a gordura reservados para ocasiões especiais. O vinho tinto, rico em substâncias antioxidantes, também entra no cardápio diário em doses moderadas. A moderação, aliás, parece ser outro fator importante para a longevidade, conforme mostra a cultura japonesa. Por lá, diversas estratégias são adotadas para evitar a comilança excessiva, como pratos e porções menores, e parar de comer quando se sentem satisfeitos.
 

 

 

Aurora Albanese, usuária do plano PES-A, em viagem com a família
 

“Se por um lado a medicina e o saneamento melhoraram e isso facilita o envelhecimento, por outro o estilo de vida atual vai contra a corrente da longevidade. A vida antigamente era mais fácil”, diz a médica Cláudia Fló, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). “Hoje nossa alimentação é muito baseada em carboidratos, porque a comida rica em calorias é mais barata do que as frutas, verduras e proteínas”, completa, explicando também que esse é um dos motivos pelos quais os índices de obesidade aumentam a cada dia.

 

Muita calma no dia a dia

O estilo de vida apressado por si só não ajuda em nada a busca por longevidade. Primeiro, porque o estresse ativa o sistema inflamatório do corpo, explica Buettner, o que pode aumentar o risco de surgimento desde doenças cardiovasculares até Alzheimer. Fazer pausas por alguns minutos todos os dias é fundamental para evitar o processo. Buettner também observa que a correria tem diminuído o tempo que dedicamos aos amigos e aos familiares, que desempenham um papel importante para a longevidade. Todos os idosos das Zonas Azuis fazem parte de comunidades estruturadas, compostas por pessoas com quem podem contar em todos os momentos da vida. “Isolamento mata”, enfatiza Buettner. Há 15 anos, os americanos tinham em média três bons amigos; atualmente, o número caiu para um e meio.


E não é só para dividir momentos bons e ruins que os amigos são importantes. Ele defende, com base em outros estudos, que as pessoas à sua volta têm mais impacto na sua vida do que hábitos ou dietas que você tente seguir. “Há estudos que mostram que se os seus três melhores amigos forem obesos, você terá 50% mais chance de ficar acima do peso, mas se a noção de diversão deles envolve alguma atividade física, é mais provável que você também seja saudável”, explicou em 2009 em uma palestra do TED, série de conferências sobre tecnologia, entretenimento e design realizada pela Fundação Sapling desde 1984. Em resumo, ele afirma: “Seus amigos são aventuras de longo prazo e provavelmente a coisa mais significativa que você pode fazer para acrescentar anos à sua vida e vida aos seus anos”.


Outro ponto bastante comum entre os idosos das Zonas Azuis é a prática de atividade física. Mas eles não frequentam academias, muito menos correm maratonas. O exercício físico é inserido naturalmente no cotidiano, em caminhadas como o principal meio de locomoção ou no esforço físico (como levantar peso ou jardinagem) natural das tarefas domésticas. Quando vão a algum lugar específico para se exercitar, todos tendem a de fato apreciar a atividade — seja um jogo de tênis ou natação. A importância de permanecer em movimento não passa despercebida por Maria Helena e Aurora, ambas inclusive atribuem a isso sua longevidade. “Só cheguei até aqui porque nunca parei, até quando me aposentei logo busquei fazer outra coisa”, diz Maria Helena, que se orgulha ao listar suas atividades diárias e mostrar que nunca deixou de ser atuante e vota até hoje, por exemplo. “Eu trabalho fora desde os 17 anos, só parei por volta dos 84 porque ninguém mais me quis, mas continuo muito ativa, faço tudo a pé”, conta Aurora.


Esse “não parar” vai além da atividade física e diz respeito também a manter um senso de propósito, uma razão para acordar todos os dias. Na cultura japonesa, a palavra “aposentadoria” nem sequer existe. Em vez disso, possuem “ikigai”, que significa “razão de ser”. Na visão de Buettner, isso é mais um, se não o mais importante, elemento da fórmula da longevidade. Afinal, nenhum outro serviria — muito menos faria sentido — não fosse o forte ikigai que estes idosos têm. “A busca só por estender a vida é vazia sem um senso de propósito”, afirma Buettner. “Hoje existem muitos produtos que prometem acrescentar anos a sua vida, mas o mais importante para a longevidade é viver de acordo com seus valores e saber se doar. Não existem atalhos para viver mais e melhor”, finaliza o jornalista.

 

 

 

Envelhecer sem apertos

Dinheiro não compra felicidade, e o estilo de vida das Zonas Azuis demonstra bem isso. Entretanto, estabilidade e organização financeira podem diminuir preocupações com o futuro — especialmente em relação aos gastos inesperados com a saúde. O ideal é começar a se preparar para isso antes mesmo de se aposentar.

Por mais que possa parecer distante, o tempo passa rápido e quanto antes você começar a se planejar, menos complicado será o processo. Procure traçar uma estratégia para definir quanto irá receber, quanto precisará ter para manter o padrão de vida desejado e, a partir disso, quanto precisará juntar para uma aposentadoria tranquila.

Entre as dicas estão a economia das férias, do 13° salário ou de algum bônus extra para contribuir com seu plano de previdência. Também vale avaliar investimentos e compreender qual pode ser o mais vantajoso e seguro para o seu caso e até mesmo avaliar uma outra atividade para continuar na ativa depois de pendurar as chuteiras da carreira.