Felicidade Comprada

Atualmente já estamos suficientemente convencidos da relação entre o dinheiro e as emoções, sobretudo, relacionado à felicidade. Não significa que realmente haja uma ligação direta, mas há uma mentalidade cultural e social que acredita nessa junção. Em decorrência dessa crença se estabelece uma quase obrigatoriedade entre ter dinheiro e ser feliz.

          É muito comum ouvirmos: “vou trabalhar neste ritmo até conquistar XXX”. Invariavelmente o ritmo de trabalho é alucinante, são horas ininterruptas de negociações, almoços substituídos por lanches, lanches não feitos, exercícios físicos cabulados, maridos, mulheres e filhos relegados. Por vezes, para nos sentirmos mais aliviados, recorremos a Fernando Pessoa na tão conhecida expressão: ”tudo vale a pensa se a alma não é pequena”. Mas também podemos nos lembrar de Vinícius de Moraes e Toquinho quando nos fazem pensar com a música chamada, não coincidentemente, Testamento:

“você que só ganha pra juntar, o que é que há, diz pra mim o que é que há...”
“você que não pára pra pensar, que o tempo é curto e não pára de passar...”
“você vai ver um dia em fria você foi entrar, por cima uma laje, embaixo a escuridão, é fogo irmão, é fogo irmão...”

          Mas ainda que sejam evidentes os riscos, por que muitos se deixam levar pela tirania da busca pela riqueza? Muitas são as explicações, mas vale refletir sobre as hipóteses levantadas por Pascal Bruckner quando diz que “a riqueza é antes de tudo um espetáculo a ser exibido, que regala os olhos, aguça os apetites, alimenta o rancor.” E, se aos olhos daqueles que não possuem riqueza o rancor se instala, é compreensível que tal sentimento seja confundido com infelicidade. Além disso, o grande e universal espetáculo que a mídia promove cotidianamente apresenta pessoas felizes ao terem isso ou aquilo e nessa engrenagem, a riqueza passa a ser vista como a via que possibilita as compras, portanto, que viabiliza a felicidade.

        E assim, grande parte da civilização busca a riqueza na tentativa de encontrar a felicidade. Melhor dizendo, busca no ato de comprar o encontro com a tão sonhada felicidade. Afinal, a felicidade pode ser comprada? Inúmeros seres humanos partilham a ideia de que as pessoas são condenadas à dissonância, à competição e à insatisfação. Desta forma, ainda que fosse possível, de nada adiantaria comprar a felicidade, porque logo ela seria consumida e a fome de alegrias se abateria novamente sobre os seus compradores, concomitantemente, a riqueza nunca parece bastar. Então, se estamos fadados a conviver com a falta, precisamos investir a maior parte do tempo das nossas vidas, na busca utópica da sensação de completude e preenchimento, sobretudo, através das compras incessantes?