Especialistas explicam como lidar com as contas de início de ano

SÃO PAULO E RIO - Em janeiro, tão certa quanto a onda de calor é a chegada de um monte de contas extras para pagar. Além dos impostos referentes a imóveis e veículos (IPTU e IPVA), é hora de comprar o material escolar e já pensar na renovação do seguro do automóvel. Passar por esse período sem ferir a saúde financeira requer planejamento detalhado, sobretudo em um momento de recessão. Alguns cuidados, no entanto, podem garantir um começo de ano sem novas dívidas e com a tranquilidade de uma conta corrente tão azul quanto o mar do Caribe.

A situação é mais confortável para quem consegue guardar parte do 13º salário para fazer frente a esses gastos. Se o seu caso não é esse, é preciso evitar a qualquer custo duas situações: deixar de pagar alguma conta, como o cartão de crédito, para pagar à vista os tributos e aproveitar o desconto dado por prefeituras e estados; ou tomar um empréstimo para aproveitar o desconto.

— O ideal é já ter reservado o dinheiro para essas despesas, já que, em geral, o orçamento mensal não comporta esses gastos extras — diz Ricardo Figueiredo, analista do fundo de pensão Funcesp.

Mesmo para quem tem dinheiro para pagar à vista, fazer as contas também é necessário: o desconto tem de ser maior do que deixar esse dinheiro aplicado. Figueiredo afirma que, em média, o desconto tem de ser superior a 0,7% ao mês para compensar. Ou seja, para um imposto que pode ser parcelado em dez vezes, o desconto deve ser em torno de 7%. Se for menor que isso, é melhor aplicar os recursos e ir sacando mensalmente o valor da prestação.

— Em relação aos tributos, o ideal é pagá-los à vista, pois sempre são oferecidos bons descontos. No entanto, via de regra, o parcelamento de tributos possui baixas taxas de juros, o que pode aliviar uma situação em que há outros compromissos. É preciso sentar e fazer as contas — afirma o educador financeiro Rafael Seabra, do site Quero Ficar Rico.

Para quem não tem os recursos, a sugestão é cortar outras despesas, como reduzir o plano de TV paga ou celular. Tudo para que esses tributos caibam no orçamento e não seja necessário pegar um empréstimo. Além do custo elevado de um crédito pessoal, cuja taxa está em torno de 4% ao mês, o consumidor ficará com o orçamento ainda mais apertado e com risco de não honrar todos os compromissos.

No caso dos gastos com material escolar e seguro de veículo, a dica é pesquisar, para encontrar o menor preço, e reciclar o que for possível. Vale aproveitar as feiras de troca de livros oferecidas por algumas escolas, usar a mesma mochila do ano passado ou até formar grupo de compras com outros pais de alunos: comprando em maior quantidade, é possível negociar descontos.

— A economia pode ser tão boa na compra desses materiais que já vai ser equivalente a uma boa aplicação financeira — garante Carlos Eduardo Eichhorn, superintendente de gestão de recursos da Mapfre Investimentos.

Rodrigo Bussab, consultor financeiro e sócio do site Up My Money, concorda com Eichhorn. E faz uma recomendação extra para pais que criarem grupos em redes sociais:

— Eles precisam eleger alguns dos pais para decidir quem vai fazer pesquisas nas papelarias. Nas lojas mais baratas, eles devem chegar dizendo que representam um número expressivo de país e pedir desconto pela compra coletiva.

LIVROS DIDÁTICOS: TROCA EM VEZ DE COMPRA

Hebe Veiga, de 43 anos, pretende economizar 50% este ano nas despesas de material escolar do seu filho João, de 13 anos. Ela vai participar de uma espécie de feirão de troca de livros didáticos que o colégio Mopi vai promover nos próximos dias. Para cada livro usado que doar, Hebe poderá levar para casa outro, desta vez da nova série de João, o nono ano do ensino fundamental.

— Estamos em um momento em que a economia colaborativa é um caminho inteligente que deve ser incentivado. Antes, eu não fazia nada para economizar. No máximo, uma pesquisa de preços, mas os dos livros didáticos costumam ser tabelados — conta Hebe, que calcula gastar cerca de R$ 2 mil com material escolar e uniforme no começo de cada ano. — Os livros que eu não conseguir trocar no feirão, vou procurar na Estante Virtual (portal de sebos online). Comprar livros novos será minha última opção.

Hebe já adotou outros hábitos para reduzir as despesas nos primeiros meses do ano:

— Eu não tenho mais carro, uso a carona solidária. Logo, não pago mais IPVA. Para compensar a conta de luz, que em janeiro e fevereiro duplica por causa do calor, diminuí os planos do celular e da TV por assinatura, e reduzi as visitas da diarista.

Rafael Seabra observa que a matrícula escolar também pode ser negociada e, nessa hora, a crise é aliada do consumidor:

— Sempre vale apostar no diálogo, mostrar dados sobre inflação. As escolas particulares perderam muitos alunos por causa da crise, é mais interessante para elas manter o aluno, mesmo que tenham de dar desconto, do que perdê-lo.

Carlos Eduardo Costa, consultor do site de Educação Financeira, do banco Mercantil, afirma que é preciso colocar tudo na ponta do lápis para saber se será possível arcar com as despesas.

— Se não pode pagar à vista, é preciso encaixar no orçamento do mês. Empréstimo é a pior opção, porque corre-se o risco de a dívida avançar para o ano seguinte — avalia.

Quem conseguir se organizar para passar por essa enxurrada de gastos de início de ano, os especialistas aconselham a iniciar uma poupança, caso ainda não se tenha uma. O ideal, para quem não tem nada, é começar por investimentos de elevada liquidez, em que o resgate pode ser feito a qualquer momento, e de baixo risco. Os títulos do Tesouro atrelados à Selic e os CDBs de grandes bancos são os mais indicados.

Figueiredo, do Funcesp, lembra que, embora os CDBs de bancos de menor porte paguem um rendimento maior, é preciso considerar que essas instituições podem enfrentar algum problema. Nesse caso, investimentos até R$ 250 mil estão cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). No entanto, o processo de intervenção e pagamento não é imediato, e o investidor pode ficar sem seus recursos caso precise deles para uma emergência.

— É importante desmistificar a ideia de que investimento é coisa para quem tem muito dinheiro. Qualquer pessoa com CPF e conta corrente pode comprar títulos do Tesouro a partir de R$ 30 — lembra Seabra.